5 de mar de 2010

O homem que engarrafava nuvens


Você sabe quem foi Humberto Teixeira? Não? Bem, nem eu sabia, mas com o milagre do cinema em menos de 2 horas de projeção fiquei sabendo muito sobre o homem por detrás das maiores canções interpretadas por Luiz Gonzaga, incluindo “Asa Branca”.

Num primeiro momento pode parecer desinteressante saber quem foi esse homem, mas o documentário nos apresenta a grande importância que Humberto teve como artista e fomentador da cultura brasileira e mais, declarações reveladores sobre o ser humano machista, hipócrita e prepotente. E são justamente esses os melhores momentos do longa, as declarações de lembranças machucadas da ex-mulher e da sua filha, Denise Dumonnt, que abre e fecha o documentário falando da vontade de querer conhecer melhor o pai. No começo do filme ela confessa ter essa vontade, e que espera ao longo do projeto saber quem foi esse homem que passou a vida inteira ao seu lado mas que para ela foi um grande mistério. No final do longa ela relata um acontecimento raro; pouco antes da morte de seu pai, onde a vida cedeu à Humberto um instante de tolerância dando a possibilidade de se conhecerem melhor; mas foi mesmo um único instante, pois ele morreria no dia seguinte deixando apenas a certeza de sua grande vontade; conhecer melhor sua filha.

Difícil a pessoa que realmente conhece o pai e a mãe que têm, assim como os pais nunca conhecem seus filhos. As máscaras simbólicas carregadas por essas entidades nos impedem de saber verdadeiramente quem são esses seres que nos geraram e nos criaram. Mas sabemos que jamais conheceremos alguém em todas as suas faces, pois ainda não nos conhecemos plenamente para poder depois conhecer o próximo, mais difícil ainda se esse “próximo” for tão próximo a ponto de nos confundirmos.

Humberto foi para algumas pessoas O máximo, um grande herói da nossa cultura que trouxe para os grandes centros do Brasil e do mundo o encanto e a tristeza da cultura nordestina, já para sua ex-mulher, mãe de Denise, Humberto acabou por se tornar um pesadelo, o pior aniquilador de seus talentos. O documentário desmistifica o herói revelando o homem. Como artista ele foi insuperável e como ser humano foi digno das faltas mais comuns de sua época. O filme é sobre o homem.

E por apelo estilístico, o filme faz mais do que um mero documentário de depoimentos factuais/pessoais, ele é também uma peça musical, um documentário musical onde grandes nomes da música popular nacional interpretam canções compostas por Humberto, inclusive uma ótima tradução de um baião (ritmo disseminado por Humberto e Gonzaga) cantado em japonês por Miro Hatori e também “Asa Branca” cantada em inglês e sem perder o sentido. Lírio Ferreira, o diretor do longa, ainda insere imagens antigas do Rio de Janeiro e de cidades do nordeste para emoldurar a época de qual estava falando, essas imagens são a cereja do bolo do filme que somando a fórmula depoimentos + canções + imagens antigas se torna um lindo registro de nossa forte cultura popular que hoje parece tão renegada à guetos.

Mas agora vou falar de outra coisa que não é sobre o filme em si e espero não desapontar ninguém, é que nesse filme me aconteceu algo inusitado, uma verdadeira experiência cinematográfica, uma revelação tão ululantemente óbvio (como diria Nelson Rodrigues) mas que até então eu ainda não tinha tido consciência plena. É que descobri que quando estamos dentro de uma sala de cinema, estamos na verdade em uma outra esfera astral.

Explico, quando a sessão terminou e o lanterninha abriu a porta da sala de projeção aconteceu algo, esta porta abriu diretamente para a praça de alimentação do shopping onde ficam os cinemas, não haviam corredores que separassem a sala escura da praça de alimentação com suas mesinhas, cadeiras, luz claríssima e restaurantes fast-food, e olhando de dentro do cinema senti que estávamos (eu e todas as outras pessoas que tinham visto o filme) à parte daquele mundo que o shopping faz parte, como se estivesse num endereço físico completamente diferente e que aquela porta na verdade fosse um portal dimensional, da mesma forma que em “A Caverna do Dragão” quando os personagens estavam ainda no mundo do Vingador e podiam ver, através de um portal mágico, o parque de diversões de onde saíram na Terra.

Talvez fosse o torpor que nos encontramos quando terminamos de ver um filme, mas essa sensação de outra dimensão era pura e real. Logo mais tarde naquele mesmo dia eu tive a mesma sensação, só que ao inverso, agora era eu quem estava sentado na praça de alimentação observando as pessoas que saiam da sessão. A sala parcialmente escura parecia um universo paralelo.

Isso deve acontecer porquê o Cinema é maior que o filme, assim como o homem Humberto Teixeira parece mais interessante em suas falhas do que o herói absoluto. Mais velho que o filme, o Cinema como arte de projeção do mundo interior para o mundo exterior já existia há milhares de anos antes da invenção do cinematógrafo dos irmãos Lumière e por isso ele carrega uma carga pesada de emoções acumuladas através dos séculos. Isso faz com que mesmo um filme documentário sobre uma pessoa real, com histórias e depoimentos reais, nos faça viajar longe na história. mas isso é culpa da sala de Cinema, não do filme, pois o mesmo filme visto numa sala em casa não tem o mesmo poder. Até então eu pensava que só as obras ficcionais detinham este potencial, mas agora sei que até o mais verossímil dos documentários, quando exibidos na sala escura, são capazes desse efeito mágico.


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