1 de fev de 2010

Entrevista com a musa do cinema marginal Helena Ignez

Retirada do portal www.emiolo.com


Helena Ignez em "A Mulher de Todos" de Rogério Sganzerla (1969)

Ícone do cinema brasileiro moderno, Helena Ignez esteve junto aos grandes gênios da arte cinematográfica, atuando em clássicos com uma beleza e uma forma de atuar única e marcante. Uma carreira singular, estrelada por clássicos como “O Bandido da Luz Vermelha” e “Sem essa aranha”. Segundo o jornalista Vlademir Lazo Correa: “Helena Ignez é tão singular que somente poderia ter sido moldada por relações com homens que viveram o cinema com o corpo e com a alma, no caso alguns dos diretores mais importantes surgidos no país, numa afinidade em que os vínculos da atriz com cada diretor confundem-se e imbrica-se ao ponto de não se saber onde começa a contribuição da musa inspiradora e onde inicia o trabalho de cada um desses cineastas na lenta construção do mito da artista. Até mesmo por que existe um consenso de que Helena não foi descoberta, na verdade ela quem foi incumbida pelos deuses para cruzar os caminhos de Glauber Rocha, Julio Bressane e Rogério Sganzerla.” Esta afirmação é tão autentica que não me resta mais palavras.
Atualmente Helena Ignez trabalha na direção da seqüência de “O Bandido da Luz Vermelha” intitulado “Luz nas Trevas” cujas idéias principais do roteiro foram deixadas em páginas escritas por Rogério Sganzerla antes de morrer em 2003. No principal papel feminino, o longa conta com a participação da filha da diretora com o cineasta, Djin Sganzerla, que no filme contracena com o ator André Guerreiro Lopes.

Por Daiverson Machado - daiversom.machado@emiolo.com


Helena Ignez nos bastidores de "Luz nas Trevas"


O que você aprendeu com Rogério Sganzerla?

São incontáveis tudo o que eu aprendi com ele nestes 35 anos que a gente trabalhou junto, aprendi como aprendiz de cineasta e também como pessoa.

Você se considera marginal?

Não, nem por sonho, eu acho que estou bem por dentro de todo movimento da sociedade, então não sou marginal de jeito algum. E acho que o cinema que eu fiz também não é marginal, pois foi um cinema voltado à linguagem cinematográfica e também voltado para a idéia sofisticada e também popular que não tem nada de marginal.


Como tem sido colocar em prática o projeto de “Luz nas Trevas”?

Fazer um filme não é fácil e exige uma preparação grande, estamos desde 2003 e começamos de certa forma vitoriosos porque ganhamos um incentivo para o desenvolvimento do roteiro e depois também ganhamos todos os editais aqui do Estado de São Paulo. Nós filmamos, mas o que ganhamos nestes editais não é o suficiente para a finalização do filme, ele deve ficar pronto por volta de Julho.


O que podemos esperar deste filme?

Esperar um filme com um roteiro muito interessante, atores ótimos, um filme bastante vital, com esperança no próprio ser humano e também um filme que deverá circular nos festivais.

Será um trabalho autoral seu ou você vai manter a marca de Sganzerla?

É o seguinte, eu tive uma participação enorme neste roteiro porque ele não foi deixado como roteiro, foram deixadas como 9 páginas de anotações sobre o tema, sobre a possibilidade de voltar a filmar esse tema, anotações sobre todos os personagens e o roteiro foi organizado por mim com a colaboração e a interlocução de Guilherme Marback e do Beto Huckenzel, a quem eu dedico o filme. Então o filme é autoral nesse sentido, porque desde o começo ele teve uma concepção, que seria a minha concepção sobre o roteiro, já que fui eu que organizei esse roteiro. E em determinado momento eu precisava de outras forças, forças econômicas e convidei uma outra pessoa para dirigir comigo que foi o Ícaro Martins, mas desde sempre nós tivemos ótimos contatos, ele jamais descordou de nenhuma das minhas idéias e observações, ele foi superfiel interlocutor. Nós juntos na direção de set, houve muita harmonia, porque o importante era levar essas idéias que estavam contidas no roteiro para o filme, sobretudo para realizar o roteiro. Isso também de uma certa forma não é uma atitude sganzerliana, que improvisava mais, existia uma forte base de roteiro, mais as improvisações eram extremamente soltas, nesse caso do “Luz nas Trevas” não, é um filme mais convencional no sentido de não improvisar.

Porque a escolha de Ney Matogrosso para o papel principal de “Luz nas Trevas”?

A escolha veio através de indicações de minhas filhas, Paloma Rocha e Sinai Sganzerla, que me lembraram do Ney. Aí com essa lembrança, demorou poucas horas pra fortificar, eu liguei pro Ney, convidei e ele aceitou.


Helena Ignez em "A Família do Barulho" de Julio Bressane (1970)

Muitos filmes do cinema marginal brasileiro foram conhecidos pela nova geração através de downloads na internet. O que você acha disso?

Eu acho que tem tudo a ver, os filmes falam de uma maneira mais impactante, é mesmo pra nova geração, esses filmes tem a força da juvenilidade, uma juvenilidade sem idade, porque de uma certa forma foi o que aconteceu com os filmes de Rogério, sempre foram inventivos e marginais nesse sentido da extrema invenção, e nesse sentido o mainstream é mais careta e preso as circunstancias. E esse cinema muito mais livre trazendo a mente, trazendo uma coisa mais nietzscheniana, mais Rimbaud, mais Oswald de Andrade, trazendo humor, trazendo a irreverência, trazendo a anarquia, então exatamente isso tem a ver com a juventude. Existe essa resposta muito grande, principalmente em relação a esses filmes que eu fiz com Rogério e também os filmes que eu fiz com Julio Bressane, que eu vejo que é a mesma coisa tanto no Brasil quanto no exterior.


Como esse cinema é visto no exterior?

No ano passado eu passei uma grande parte viajando pela Europa e também pela Índia e pela Ásia, com convites e homenagens grandes como foi a do Festival de Calcutá para o cinema de Rogério, também em Trieste na Itália no Festival de Cinema Latino Americano eu recebi uma homenagem e recebi outra com um prêmio internacional para meu filme “Canção de Baal”, também estive em Portugal já com um “work in progress” de “Luz nas Trevas”. No ano retrasado foi a mesma coisa, cheio de homenagens e mostras tanto para Rogério quanto para mim. Então de uma certa forma esse cinema está sendo redescoberto, e em todos os lugares, é a mesma gente que gosta dos filmes, são o jovens, os cinéfilos, os intelectuais que não estão satisfeitos com o status quo, que questionam, artistas de todos os tipos e de todas as idades interessados nos filmes e isso é muito legal.


O que existe de bom no atual cinema brasileiro pra você?

Tem alguns filmes que eu gosto muito, que surgem de uma maneira especial, eu poderia citar muitos, mas o cinema que me agrada realmente é o cinema experimental, eles transmitem muita impulsividade. Tem vários filmes que eu gostei esse ano.


Como você vê a sociedade atual, onde, salvo raras exceções, os artistas não trazem ousadia em seus trabalhos?

São filmes que estão para cumprir as obrigações do mercado, pertencem a uma indústria, mais já não é mais a sétima arte, não é mais a arte cinematográfica. Existe algumas pessoas que fazem cinema e que não estão mais engajadas nessa idéia, não é isso o que elas querem, mas dentro desses filmes que enchem as salas podem surgir filmes bons.

A realidade brasileira atual, seria um prato cheio para o deboche e o sarcasmo dos filmes do cinema marginal. Onde foi parar esse sarcasmo e esse deboche no cinema brasileiro atual?

Eu não sei. No “Luz nas Trevas” existe, mas também existe intrínseco no roteiro, a própria linguagem cinematográfica não existe mais, isso é praticamente impossível de fazer. No caso de “Luz nas Trevas” é um filme inserido no mercado. Então esse sarcasmo fica, mais fica de uma maneira muito menos cinematográfica do que foi feito anteriormente, no caso especifico de alguns filmes como “Sem essa aranha”, “O bandido da luz vermelha”, “A mulher de todos”, o sarcasmo e um deboche fantástico, intelectual, inteligentíssimo e ao mesmo tempo entendível por uma grande quantidade de pessoas, isso não tem mais.

Helena Ignez beija Luiz Gonzaga em cena antológica de "Sem Essa Aranha" de Rogério Sganzerla (1970)


De “Glamour Girl” na Bahia a musa do cinema transgressor marginal, como se deu essa transformação em sua vida?

Como o anjo de Drummond, eu nasci para ser gauche na vida, porque desde esse período de glamour girl, ali já existia uma certa contestação, a pessoa era a mesma. Desde criança eu já sabia, não houve uma guinada. Houve um companheiro fortíssimo na minha adolescência que eu conheci aos 17 anos, a quem eu devo muito o destino que a minha vida tomou, que foi Glauber Rocha. Esse companheirismo me apontou uma coisa nova, mas ao mesmo tempo quando eu o conheci eu já tinha me matriculado na escola de teatro. A partir daí os caminhos que eu fui tomando, entre certos e errados... porque existe também certo e errado, desde que você pense como uma dicotomia, um caminho que existe com erros e acertos de qualquer maneira e que é pessoal. No caso nunca houve uma guinada nesse sentido, mas é claro que aquela menina com uma trajetória em concursos de beleza, com sucesso na alta sociedade e de repente ver aquela menina atriz de teatro, levando profundamente a sério e trabalhando também no cinema, estudando pra caramba, eu já tinha saído da sociedade baiana, já não era tão vista, porque já estava em outra área, uma área mais de arte. Pra eles era uma guinada, mais pra mim não, pra mim era como um caminho natural.


Como os filmes do cinema marginal eram vistos na época?

Nós éramos chiquérrimos, marginais chiquérrimos, marginal mesmo entre aspas era Glauber e Rogério, nós éramos bem amigos de Elyseu Visconty e de alguns atores. Então era todo mundo super elegante, chique, vivíamos viajando pela Europa, os meninos eram os dândis, os dois, tanto o Rogério Sganzerla quanto o Júlio Bressane, eu era bemvestidésima, freqüentávamos os melhores lugares e nos divertíamos pra caramba, éramos convidados por todo mundo, não íamos as vezes, não dávamos conta de tanta coisa, existia uma liberdade chique, uma coisa de F. Scott. Ftzigerald só que em uma era psicodélica e não alcoólica.

E de onde vinha o dinheiro?

O dinheiro vinha dos filmes, faziam muito sucesso, muitíssimo sucesso, “O bandido da luz vermelho” foi um grande sucesso, “A Mulher de todos” mais ainda, inúmeros prêmios, eu vivia na ponte aérea porque eu fazia cinema, teatro e televisão, então era uma loucura. O Cinema Novo estava no auge naquela época também, esses filmes estavam surgindo, era uma festa, uma grande festa no meio de uma ditadura, no meio de uma pressão política horrorosa, sem duvida a pior das épocas, porque hoje é diferente, nós temos outras perspectivas, era uma época de bombas mesmo, de terrorismo, você tinha quer ser uma fera pra lutar contra as feras. E foi aí que surgiu a Belair, que foi isso no Rio de Janeiro.

Como foi botar pra fora imagens intimas dos bastidores da Belair no seu filme, “A Miss e o Dinossauro”?

As imagens são lindas, são em Super 8, e a idéia surgiu logo após a morte de Rogério, quando eu vi aquelas imagens belíssimas, quis falar um pouco sobre elas.

Foi uma declaração de amor?

Claro. Com uma música linda que o João Gilberto tinha feito especialmente pra ele que é a “Valsa da Despedida”, o Rogério andava muito com o João Gilberto, e teve essa gravação que ele deu pro Rogério. Então foi isso, uma reunião das idéias e do pensamento dele principalmente, de como o cinema pode ser sublime, de como o cinema pode ser espiritual, o cinema espiritual não no sentido vulgar e religioso, mais no sentido do homem poder se sentir imortal.

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