16 de dez de 2009

Amar e perder Glauber Rocha: viúva do cineasta estreia filme sobre os últimos meses do artista

Essa reportagem está no site da Revista Marie Claire, apenas copiei e colei ela aqui, esse é o endereço http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Common/0,,EMI110329-17642,00-AMAR+E+PERDER+GLAUBER+ROCHA+VIUVA+DO+CINEASTA+ESTREIA+FILME+SOBRE+OS+ULTIMO.html


Por Letícia González
Paula Gaitán
Paula fotografa o marido pelo reflexo de um espelho

“Diário de Sintra” é um documentário, mas um diferente da maioria do gênero. Não há nomes que apresentem as pessoas na tela, indicação de data ou um discurso linear. No filme de Paula Gaitán, viúva e mãe de dois filhos de Glauber Rocha, quem fala é a voz de uma mulher que perdeu, 25 anos antes, um grande amor.

Para fazê-lo, Paula voltou a Sintra, a pequena cidade portuguesa onde viveu com o cineasta e as crianças em uma espécie de autoexílio. O ano era 1981 e a época foi de intensa produção para Glauber. A família viveu lá até que ele, doente, teve de ser trazido de volta ao Brasil. O diretor morreria no dia seguinte ao desembarque.

Como a própria Paula explica, “Diário de Sintra” não é um filme sobre o Glauber Rocha. É um jogo de memória que, poético, pode emocionar qualquer pessoa que já viveu uma perda. Foi o que ocorreu no festival de Tribeca, em Nova York, no ano passado, quando Paula viu muitas pessoas comovidas no fim de uma sessão do filme. “Poucas pessoas ali já tinham visto um filme do Glauber”, diz ela.

Marie Claire Online conversou com a artista sobre a época que inspirou o filme, que estreia nesta sexta-feira em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

Marie Claire - O Diário de Sintra é um filme sobre um passado pessoal seu. Por que fazê-lo?
Paula Gaitán - Eu tinha esse material, feito em 1981, que tinha ficado no passado. Eu nunca havia mexido. Aí passados 25 anos, participei de um edital do Itaú e ganhei. Eu sempre fui correta sobre o tema: não é um filme sobre o Glauber, é uma construção minha a partir dele. E quando você faz um filme, é porque existe uma necessidade vital de fazê-lo, uma pulsão que te leva. Foi o que aconteceu.

MC - Nele, o fluxo de narração dele não é linear. Por que?
PG - Porque a memória não é linear mesmo. Ela é cheia de faltas e vazios, partes escuras que você não consegue alcançar. Para falar de memória, você parte do esquecimento e constrói essa coisa fragmentada, feita de associações livres. A memória é muito sensorial, olfativa. E o filme é sensorial também.

MC - Assistí-lo é como remexer em uma caixa de lembranças para você?
PG - No começo, quando fiz o filme, a questão da produção se impunha. Viajamos a Portugal e acontecia de acordar às 5h para trabalhar, tinha uma rotina. Ele ficou pronto em 2007 (eu o montei muito rapidamente). O que acontece agora é que, cada vez que vejo o filme me emociono mais. É como se visse filme de outra pessoa. Porque todo mundo tem perdas - às vezes nem é por morte, pode ser um namorado que foi embora ou a relação que acabou, e você tem que viver aquele luto. O filme fala delas, da ausência, não só da viuvez.

 Divulgação
Glauber, a pequena Ava e Paula

MC - Por que vocês estavam em exílio em Sintra?
PG - O Glauber tinha feito “A Idade da Terra” e nós fomos com ele para Veneza, eu ele e as crianças. O filme não teve uma boa acolhida no Brasil, pois tinha uma proposta muito à frente de seu tempo. E ele sofreu muito com isso, teve muitas decepções. Se sentiu exilado de novo. Então decidiu ir para Sintra, queria ficar isolado.

MC - Como eram esses meses em família?
PG - Foi um período muito interessante, bonito. Sintra é bucólica, é pra onde iam os poetas românticos, como o Lord Byron. Foi fértil. Ele escreveu vários roteiros. O Glauber tinha uma disciplina inacreditável, era muito rigoroso e certinho. As pessoas têm uma visão de que ele tinha uma personalidade exuberante, mas ele começava a trabalhar na máquina de escrever às 8h, ia até as 12h, almoçava e depois retomava.
O problema é que havia sido uma longa batalha mesmo. E aquilo afetou a saúde dele. Eu costumo dizer que, às vezes, o quando o guerreiro repousa, o seu corpo não resiste. Ele não resistiu.

MC - Você esteve com Glauber nos últimos anos da vida dele. Como é sobreviver à morte de um grande amor como esse?
PG - Caracas, é difícil. Foi para isso que fiz o filme. Eu tenho muitos amores, sou uma mulher apaixonada. Mas os grandes amores permanecem.

MC - Você guarda muitas coisas do Glauber?
PG - Guardo porque ele foi um homem importante. Ele não foi um grande amor só para mim, mas também para quem ama o cinema dele, para quem segue suas ideias. Não é um privilegio meu, que fui companheira dele... [Paula se desculpa por não conter o choro]. Eu fico emocionada. Esse amor não me pertence, é um amor coletivo, porque ele é um homem público.

MC - Assim como ele, você é uma artista [Paula é cineasta e poeta]. O que Glauber lhe ensinou sobre arte?
PG - O Glauber deixou uma lição para muitos artistas, que é a possibilidade da invenção, da liberdade, e de lutar por isso. De ter coragem, ter uma ética e uma estética. Na história da humanidade você vê gente que aderiu a movimentos de extrema direita e teve obras artísticas revolucionárias. Mas é essa coerência [que esses artistas não tiveram] que o Glauber deixou.

MC - O mundo conhece o Glauber intelectual, cineasta. Como era o Glauber pai e marido?
PG - Ele era muito dedicado. Era generoso, carinhoso, como os pais têm de ser. A generosidade é do carater do Glauber, ele sempre se doou muito aos amigos também. É muito bonito a parte [do filme] em que ele canta com as crianças. A Ava fica repetindo, e agora ela se tornou uma cantora incrível.

MC - Você se apaixonou novamente depois de Glauber?
PG -
Sim, me apaixonei. Eu tenho uma filha de 20 anos que é fruto de outra paixão. Eu sou uma mulher de grandes paixões, espontânea e intuitiva. É a minha maneira de me dedicar às coisas de coração aberto.

Paula Gaitán
Glauber em foto feita por Paula. No filme, a imagem é dada a moradores da pequena cidade, que falam sobre a identidade do fotografado

9 de dez de 2009

Heco - Portal Brasileiro de Cinema


A Heco Produções é uma empresa especializada em desenvolver projetos culturais em diferentes cidades do Brasil na área de audiovisual.
Fazem mostras de filmes considerados de difícil e raro acesso, promovem debates, em 2004 produziram um longa metragem e nesse ano, em parceria com a Lume Filmes, lançaram em dvd uma coleção preciosíssima de filmes do cinema marginal brasileiro (lançaram "Sem Essa, Aranha" Sganzerla, "Os Monstros de Babaloo" Visconti, "Bang Bang" Tonacci e "Meteorango Kid" Luiz de Oliveira) com ótimos extras como entrevistas com os cineastas e curtas e médias metragens raríssimos. Há ainda a previsão de mais 8 lançamentos em dvd.
Mas o mais interessante que tenho para mostrar a vocês é o site da Heco, que possui um acervo com centenas de textos sobre uma expressiva contribuição do cinema nacional escrito por pessoas importantes do meio. O site está bem dividido por blocos de pesquisa: "Cinema Marginal Brasileiro", "Leila Diniz", "José Mojica Marins - Retrospectiva", "Nelson Rodrigues", "Walter Hugo Khouri" e por aí vai. Uma fonte primordiosa de conhecimento!
Em breve o site irá se expandir com uma nova enxurrada de textos, entrevistas, fotos, ensaios, críticas, vídeos.

Um biscoito finíssimo.

Aproveitem

4 de dez de 2009

Agora na rede "Anjos da Noite"




Um dos filmes mais criativos, fodão, que já vi na vida, "Anjos da Noite" , único longa de Wilson Barros está agora disponível para download via torrent.


Aproveitem!

2 de dez de 2009

O Beijo no Asfalto


Já vi algumas adaptações de peças do Nelson Rodrigues para o cinema; A Falecida, A Dama do Lotação, Boca de Ouro, todas boas, umas mais outras menos, mas essa de Bruno Barreto é disparada a pior!
Será que na época o cara não tinha nenhuma noção de direção de atores? Seu único intuito foi filmar uma peça de teatro?

Do livro "Esculpir do tempo", escrito pelo cineasta russo Andrei Tarkovski, tirei esses trechos para embasar minhas observações:

"Pode-se representar uma cena com precisão documentária, vestir os atores de forma naturalisticamente exata, trabalhar todos os detalhes de modo a conferir-lhes uma grande semelhança com a vida real e, mesmo assim, realizar um filme que em nada lembre a realidade e que transmita a impressão de um profundo artificialismo, isto é, de não fidelidade com a vida, ainda que o artificialismo tenha sido exatamente o que o autor tentou evitar."

"(...) os filmes de Lumière foram os primeiros a conter a semente de um novo princípio estético. Logo a seguir, porém, o cinema distanciou-se da arte e empenhou-se em seguir o caminho mais seguro dos interesses medíocre e lucrativos. Nas duas décadas seguintes, filmou-se praticamente toda a literatura mundial. além de um grande número de obras teatrais. O cinema foi explorado com o objetivo direto e sedutor de registrar o desempenho teatral; tomou o caminho errado, e temos de aceitar o fato de que ainda hoje sofremos as tristes conseqüências dessa atitude.

Bruno Barreto fez tudo o que Tarkovski mais detestava no cinema, foi um baita de um preguiçoso e fez de um dos textos mais importantes do teatro uma peça sem graça, sem vida, quase sem significado. E não estou pedindo que Bruno Barreto tivesse transformado o filme numa obra moderna.

Pra quem interessar, esse é o link torrent pra downloadear o filme

ed2k://|file|O.Beijo.no.Asfalto.filbradown.blogspot.com.avi|732203008|66ACCBBCD4C5D1BF51F6AC5CB6751CCC|/


Mas peço que antes de assistir o filme, leia o texto original, como eu fiz. É um texto curto, dá pra ler numa tarde ou duas. Infelizmente não encontrei o texto para download, aquele link é para as opções de compra na Estante Virtual.

Até!



1 de dez de 2009

Quem eu sou. E quem é você?


Nas últimas três semanas eu estive quase que diariamente atualizando este blog, que recebe mais de 200 acessos por dia!Acho um volume interessante de visitas, mas não recebo uma resposta, através dos comentários, na quantidade que me basta.
Cheguei a conclusão que as pessoas que visitam esse blog não me conhecem, não sabem quem sou nem o que faço, o que fiz ou o que pretendo fazer. Acredito que um pouco mais de intimidade vai criar um elo mais próximo, fazer com que as pessoas se sintam mais a vontade para interagir comigo e com as coisas que escrevo.
Porquê mais importante que postar e ler regularmente qualquer coisa sobre o cinema nacional é o debate, a exposição dos pontos de vista, dos entendimentos.

Então:


Meu nome é Wesley Conrado, tenho 24 anos, moro em Joinville SC. Estudei cinema em Florianópolis em 2003, não terminei a faculdade porquê meus pais não tinham mais condições financeira de me bancar, e eu não queria trabalhar! Se eu tivesse arranjado um emprego eu teria terminado a facul!

Então, depois de ter trancado a facul, e saido da cidade que eu adorava, voltei pra casa e entrei numa perdição. Queria estudar e trabalhar com cinema, e ainda quero, mas não tinha condições financeiras para ir pra São Paulo,Rio, nem Curitiba. Até tentei a capital paranaense em 2005, mas não deu certo!

Trabalhei em 2004 numa fábrica da Consul/Brastemp, montando geladeiras, só colocava uma pecinha, era muito chato e até deprimente! Mas fazer o quê?! Fiquei 6 meses, como temporário, não fui efetivado, o que me deixou muito feliz!

2006 foi um ano praticamente perdido, não fiz quase nada, me considerava um marginal, freqüentava festivais de punk/rock/hc, que por sinal, eu odiava! Não tinha dinheiro, não trabalhava, não estudava. Então tentei o vestibular para o curso de Cinema na FAP-PR, não passei. Dai fui estudar Gastronomia aqui na Univille, na minha cidade. Trabalhava (de novo na fábrica de geladeiras) para pagar a facul.



E isso até que deu certo! Hoje sou cozinheiro, esse no vídeo sou eu! Também fiz curso de francês para poder terminar minha facul na França. Minha idéia com essa faculdade era a de aprender uma profissão legal, que me desse liberdade para viajar para onde eu quisesse no mundo, sem precisar da ajuda unica dos meus pais.

Bem, o intercâmbio pra França não rolou! Eu já tinha conseguido ser aceito numa faculdade de lá (Université d'Angers) através de uma acordo com a Univille, já tinha alugado um apê na França, me inscrito num curso intensivo de Francês, comprado a passagem, TU-DO estava pronto só faltava o Visto, e imaginem: Não consegui! Faltou grana na poupança! Cara, depois de ter me estressado tanto, me danado tanto, me privado de tantas coisas para poder economizar o pouco que ganhava na fábrica de geladeiras, acabei tomando no cu porquê sou pobre.

Por uma cagada da minha coordenadora eu também perdi a matricula aqui na Univille, então não podia ir pra Françar terminar o curso lá nem podia continuar normalmente o curso aqui!

"Aluno desistente" é como estou marcado na Univille! Pode? Eu? Desistente? Que absurdo! Só faltavam uns meses para me formar, aliás, o ultimo dia de aula foi na semana passada! Mas não fico triste por não poder fazer festa de formatura nem receber o diploma. Tudo o que eu queria eu consegui.

Aquela certa segurança para poder viajar pra onde quiser.

Dai tentei novamente o vestibular pra FAP-PR, e de novo, não passei.

2009 foi um ano muito louco, tudo no que investi foi por água a baixo. Eu tinha comprado um ingresso para o show do Michael Jackson, em Londres, e bem... Fiquei com o ingresso de lembrança! Também roubaram a minha bicicleta, além de ter perdido alguns mil reais por causa do intercâmbio abortado.

Ainda não desisti do cinema, nem vou desistir tão cedo. Cinema é a minha vida pois é a coisa mais importante pra mim! Nada supera o Cinema em matéria de importância, tenho cede de conhecimento, quero conhecer mais e mais sempre, pois sou consciente das minha limitações. Veja, apenas recentemente é que REALMENTE entendi o conceito de "mise en scène" e da sua importância, isso mudou completamente o meu olhar para o cinema. Durante os quase 3 anos de faculdade não tinha tempo para me dedicar ao cinema, fiquei bastante por fora, mas agora e com esse blog... Quero conhecer o cinema latino-americano e o cinema indiano, talvez ano que vem eu vá morar em Buenos Aires, quero muito isso, conhecer a gastronomia deles, o cinema, aprender a falar outra língua. Quem sabe consiga estudar lá!


Então, esse foi um resumo bastante superficial da minha biografia. Mas agora eu realmente quero saber de você! Quem é você que lê o meu blog? Estuda cinema? Não estuda? Tem blog?Faz o quê da vida? Mora onde? Qual sua ligação com o cinema, qual teu interesse?


26 de nov de 2009

Curta em Curitiba


Pra quem mora em Curitiba e tem nada para fazer nesta 6ª feira (27), ou tá afim de fazer alguma coisa mas não sabe o quê, vá na Cinemateca assistir a estréia do curta "Epílogo" às 20h. Produzido pela galera do curso de cinema da Cinemateca.



A entrada é grátis e vai ter coquetel depois!
:D


Eu não sei do que se trata o curta, mas se a obra expressar uma boa parte da personalidade das pessoas que o fizeram, e que eu conheci aleatoriamente na capital paranaense, com certeza vai ser muito bom!

25 de nov de 2009

Hitler IIIº Mundo


Pra quem curte cinema marginal na veia, ou apenas é um puta curioso, esse é O filme para se ver agora!
Confesso que estou muito cansado de ver sempre as mesmas imagens, meus olhos pedem por coisas novas, novas texturas, novos fatos, absurdos, improváveis, irracionais, não aguento mais essa "lógica interna da narrativa"

NÃO AGUENTO!

Deve ser por isso que curto tanto o cinema marginal, pois ele tem o dever nenhum com ninguém, não precisa prestar contas, render milhões na bilheteria ou agradar à executivos, está fora do capitalismo e por isso é livre. Esse filme é uma bela de uma cagada raivosa e necessária, uma explosão, ao avesso, causada pelo excesso de lógica. Uma obra, que como "Sem essa, Aranha" do Sganzerla, se seu próprio autor não a tivesse produzido elas existiram de alguma outra forma. Não me pergunte como!

Descobri esse "Hitler IIIº Mundo" no blog do Daiverson Machado (http://eztetyka.blogspot.com/) que conheci através da comunidade "Cinema Brasileiro Download". O Blog dele é bem legal pra quem já tá de saco cheio dessas imagens lógicas e banais. Um blog cheio de dicas de ótimos diretores e filmes do mundo inteiro, que vou fazendo downloads na medida do possível!

tão ai os links para baixa-lo:

Aproveitem meus queridos! Aproveitem!

19 de nov de 2009

Nome Próprio


Ano passado, quando estive visitando sozinho Porto Alegre, haviam quatro filmes nacionais em cartaz. Na época dois me interessavam: "Linha de Passe" de Walter Salles e "Nome Próprio" de Murilo Salles. Infelizmente não tinha tempo para assistir os dois!

Como "Linha de Passe" tinha ganho uma Palma de Ouro pelo trabalho da atriz Sandra Corveloni acabei indo ver esse filme apenas por este fato.

Hoje percebo o erro que cometi, deveria ter escolhido "Nome Próprio", vi esse filme semana passado. Com certeza foi uma grande surpresa, é um dos melhores filmes contemporâneos que vi esse ano!

O filme é baseado nos livros "Máquina de Pinball" e "Vida de Gato" escritos por Clara Averbuck, que por sua vez são baseados nas experiências que a autora teve com seu blog. O filme retrata toda uma (no caso, a minha) geração, personificada por Camila (Leandra Leal), com 20 e poucos anos, "fudida", morando fora de casa, praticamente marginal, inteligente, blogueira, "promíscua", "esquisita", apaixonada por arte (no caso da personagem são as palavras que a movimentam).



Fiz uma busca para comprar o dvd, só encontrei em uma loja por R$70,00 !!!!!
dá-lhe torrent!

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18 de nov de 2009

O Cinema Pós-Moderno Brasileiro




Muito se fala do cinema moderno brasileiro, o Cinema Novo e o Cinema Marginal, mas há outro estilo cinematográfico tão interessante quanto esses, porém sem o devido reconhecimento, é o Cinema Pós-Moderno.

Mesmo no cinema internacional este é um estilo pouco utilizado, em comparação com o cinema moderno. Filmes como "O Fundo do Coração" (Coppola), "Blade Runner"(Scott), "Brazil- o filme" (Gillian), "A Mulher do Tenente Francês" (Reisz), "Veludo Azul" (Lynch) dentre outros poucos títulos se encaixam dentro deste estilo. Talvez porque na década de oitenta a expressão "pós-moderno" servia mais para denegrir do que para classificar é que houve um enfraquecimento das atividades e estudos relacionados a ele. Chamar um filme, ou peça artística, de pós-moderno era na verdade o estar ofendendo

Descobri esse estilo artístico no cinema através do livro "Cinema Brasileiro Pós-Moderno - O Neon Realismo" de Renato Luiz Pucci Jr (entrevista) que acabei de ler e transcrevo aqui um trecho que explicita as características do cinema pós-moderno. O livro analisa o pós-moderno dentro da "Trilogia Paulista da Noite" formada por: "Cidade Oculta" de Francisco Botelho, "Anjos da Noite" de Wilson Barros e "A Dama do Cine Shangai" de Guilherme de Almeida Prado.

1) Oscilação entre narração clássica e recursos de linha modernista. Os filmes analisados são híbridos de ilusionismo clássico e distanciamento modernista.

2) Preeminência da paródia lúdica. O recurso mais utilizado para a obtenção de distanciamento é a paródia, com um aspecto lúdico que se traduz por um jogo não destrutivo com o hipotexto (a obra parodiada). Deixa-se de lado, portanto, a busca obsessiva da originalidade, própria do modernismo.

3) Caráter estetizante que não se esgota na procura do belo. A estetização opera não no sentido de criar a beleza e seduzir, embora esses efeitos estejam presentes. Como no Camp (estilo artístico kitsh), goza-se o fascínio do falso (fake), sabendo-o falso, o que constitui outra forma de distanciamento em relação à diegese.

4) Impureza em relação a outras artes e mídias. Em troca de esforço pelo "específico fílmico", ou ao menos pela sua aparência, o hibridismo transtextual transforma-se num valor positivo.

5) Relação conciliável e, ao mesmo tempo, não íntegra em relação à cultura midiática. Relações com o cinema de entretenimento, videoclipes e propaganda não constituem integração ao status quo. o ar respeitoso para com produtos da indústria do entretenimento e da publicidade não esconde que se empreende também sua contestação: os filmes se revelam enquanto discursos mesmo ao incorporar componentes do musicais americanos, do noir e de peças publicitárias, pois a combinação com recursos distanciadores produz, em maior ou menor grau, a quebra do ilusionismo. A paródia lúdica possui esse aspecto duplo e antitético: ela é definida como diferença irônica no âmago de semelhança e trangressão sancionada da convenção (Hutcheon, 1991, p.12). É sancionada porque não entra en choque destrutivo com os seus objetos, em geral produtos da cultura midiática, mas é trangressiva porque utiliza de forma descontestualizada.

6) Não-exclusão a priori do especator sem repertório sofisticado. Ao contrário do que ocorre com as variantes do cinema moderno, não existe exclusão prévia do grande público, pois sempre há elementos clássicos suficientes para que o espectador tenha a possibilidade de acompanhar as narrativas mesmo que não perceba ironia, paródia lúdica, distanciamento e anti-ilusionismo. por outro lado, basta que se "vejam as aspas", isto é, as marcas da ironia, para que os filmes adquiram outra configuração e, por consequência, outras possibilidades de entendimento.

7) Persistência da representação, com predomínio hipertextual. Não há o apocalíptico baudrillardiano, porque se permanece no domínio da representação. em vez de ocasionar a perda de referênciais, como supõem críticos mais acerbos, as representações de representações (devidas à hipertextualidade) podem produzir a compreensão do processo de construção narrativa ou de diferentes conotações do discurso que se enuncia. Também nesse aspecto há combinação entre representação clássica e denúncia da representação.




Imagino que você tenha ficado curioso para conhecer esses filmes. Então saiba que, por enquanto, na rede, só há "Cidade Oculta":

ed2k://|file|Cidade.Oculta.1986.VHSRip.XViD(emule.via.clan-sudamerica.net).avi|1468366848|3B3116F3FC59AFCEE6A3DA06AE5CC15F|/

Logo os outros dois também estarão disponíveis. E "Anjos da Noite" existe em dvd para comprar, achei por R$26,01 + frete no WallMart . Garanto que é uma ótima compra!

17 de nov de 2009

Quem viu "Salve Geral"?



A Revista Bravo! postou uma reportagem sobre o esvaziamento de interesse do público brasileiro em filmes sobre violência social brasileira. O filme mais recente sobre nossa "realidade" é o indicado a concorrer a uma vaga ao Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro, "Salve Geral".
O filme estreou no dia 2 de outubro e ficou em 6° lugar nas bilheterias, com pouco mais de 70 mil espectadores, um número bastante baixo para uma estréia com uma possível indicação ao Oscar, confirmando o que a Bravo! falou
"Salve Geral" só ficou 1 semana em cartaz aqui em Joinville, e não assisti. Semana passada estive em Curitiba, o filme ainda estava em cartaz por lá mas preferi não assisti-lo, pois meu único interesse nele seria o fato de uma possível indicação ao Oscar, como não me importo com Oscar acabei não vendo o filme.
Mas agora acho que estou curioso: será que o filme é bom?
Quem viu esse filme? Pode me dizer o que achou?

15 de nov de 2009

Você quer ler? Quer ler o quê? E como?

Esta postagem não é diretamente sobre um filme do Cinema nacional, mas é sobre algo de que não se pode fugir quando se busca aumentar o conhecimento sobre cinema ou sobre qualquer coisa.

A falta do hábito de leitura há algum tempo é algo a qual não mais se pode dar a desculpa de que “livros custam caro”, sendo uma atividade exclusiva de uma elite econômica ou intelectual.Há hoje uma gama de meios para se chegar às obras literárias, à baixo custo ou custo zero! Além da proliferação de lojas de livros usados pelas cidades de todo o Brasil, há na internet algumas formas de se encontrar aquela obra tão necessária.

Scribd: site internacional de hospedagem e compartilhamento gratuito de arquivos em .doc e .pdf. Na maioria das vezes são livros escaneados integralmente e carregados para o site de forma ilegal.

Foi através deste site que comecei a ler “Coração das Trevas” (que inspirou “Apocalipse Now”), livro esse que me deu uma vontade imensa de fugir para a Índia no começo deste ano! Logo depois encontrei um exemplar novinho num sebo e comprei. E depois de ter gasto R$50,00 no livro "História do Cinema Mundial" de Fernando Mascarelo é que fui fazer uma busca nesse site e encontrei ele em versão integral. Os últimos 5 capítulos são muito bons.

Projeto Democratização da Cultura: Uma mega comunidade que contém praticamente toda a bibliografia nacional, e muitas obras famosas estrangeiras também, além de quadrinhos, revistas, RPG e audiolivros. Há muitas formas de busca para se encontrar o que quiser e também área para fóruns de discussão e troca de arquivos. Nem todos os arquivos são ilegais, mas a maioria é. Para ter acesso basta um simples cadastro. Foi desta forma que li o conto “A 3ª margem do rio” de Guimarães Rosa, profundamente assustador!

Estante Virtual: depois de ter conhecido este site, que é um aglutinador de sebos de todo o Brasil, é cada vez mais raro eu comprar um livro novo. Mesmo tendo que pagar o frete vale muito a pena comprar neste endereço. Os mecanismos de busca são simples, pode-se procurar por título, autor, sebo, cidade ou editora.

Desta forma comprei “Larousse da Cozinha Italiana” por R$55,00 + Frete. O livro estava em excelente estado, praticamente novo. Se tivesse comprado um exemplar novo numa livraria habitual custaria no mínimo R$100,00.

Internet Archives: este recurso eu nunca aproveite plenamente, trata-se de um assustador banco de dados da cultura do mundo. É possível achar muita coisa em todas as formas: textos, livros, filmes (curtas, longas inteiros, animação) áudio, programas, além de um recurso chamado WayBack Machine que possui registrado mais de 150 bilhões de página da internet desde 1996. Aparentemente todos os arquivos são legalizados.

Viajando neste mega portal encontrei o filme "Freud - além da alma" (com roteiro escrito por Sartre, porém não creditado) legendado em português para baixar, percebi que o arquivo é ripado da TV, o que significa que as obras não são todas legalizadas, mas há um aviso de que o arquivo está em domínio público. Sei lá!

Mercado Livre - Livros: tem a mesma estrutura de compra e venda do Mercado Livre.com (bastante óbvio). Nunca comprei nenhum livro através deste endereço, mas achei um que me parece ótimo "O Cinema tem Alma?". E agora que dei uma olhada no site estou pensando em vender minhas quinquilharias aqui, os sebos da cidade estão oferecendo muito pouco pelos meus bens renegados!

Portal Domínio Público: Site oficial do Governo Federal com quase mil obras da literatura nacional em domínio público para download, tem também toda a obra de Shakespeare e até"A Divina Comédia", além de arquivos de audio, vídeo e imagens.

Recentemente o Google anunciou que irá lançar um serviço chamado Google Books, com 500 mil títulos em formato e-book para comercialização. O que existe hoje é uma forma beta deste recurso, onde você pode ter acesso livre a algumas páginas das obras e se quiser ler o livro integralmente o Google te mostra onde encontrá-lo. Mas o acervo ainda está quase todo em inglês, mas já existe muita coisa em português.

Confesso que ainda não li nenhum livro inteiro na frente do PC, só contos, pois acho isso bastante difícil, cansativo, talvez falta de hábito. Uma solução fácil é imprimir os e-books em folhas de papel reciclado ou utilizar o lado branco de apostilas que você não utiliza mais.

Também não acredito que por causa desses recursos digitais as livrarias habituais (de shopping, das esquinas, ou virtuais) desaparecerão. Pois dependendo do caso só é possível encontrar o livro querido neste tipo de estabelecimento. Por exemplo, recentemente quis comprar o “Cinema Pós Moderno Brasileiro – O Neon Realismo” de Renato Luiz Pucci Jr e só consegui encontrá-lo em exemplar novo numa livraria dessas.

14 de nov de 2009

A 1ª vez que fui ao CINEMA


Foi em 1989, aqui em Joinville, no antológico (e agora Igreja Universal) Cine Palácio, assisti "Super Xuxa Contra o Baixo Astral". Na época eu tinha 4 ou 5 anos.
Quase duas décadas se passaram e recetemente encontrei esse filme via torrent. Quase impossível descrever o que senti quando os primeiros acordes da música "Arco Iris" tocaram logo nos primeiros minutos do filme. Senti um frio na espinha como talvez nunca tinha sentido antes, um raio congelante que desceu do meu cérebro rasgando minha espinha e arrepiando cada pelinho do meu corpo, talvez por alguns milésimos de segundos tenha perdido minha visão e todos os outros sentidos. Um orgasmo assexualizado.




Revendo o filme percebi como ele influenciou (mais pro mal do que para o bem) a minha infância, e provavelmente a de muitas crianças também. As músicas, as coreografias, a roupa da Xuxa, o Xuxo, todo o brilho, as cores, o show absurdo de merchandising, a inocência fingida, as psicodelias...

Aqui está o link para copiar, colar e baixar no seu programa p2p:

ed2k://|file|Super Xuxa Contra o Baixo Astral.avi|725585920|3CDF68275727E5935325390305DBD88F|/


E você, qual foi o primeiro filme que você viu numa sala de Cinema?

13 de nov de 2009

Ele ganhou uma Palma de Ouro



Dia 7 deste mês morreu o único brasileiro ganhador de uma Palma de Ouro, Anselmo Duarte.

Em 1962 "O Pagador de Promessas" também levou o "Prêmio Especial do Júri", até então o único filme nacional a fazer sucesso fora do Brasil tinha sido "O Cangaceiro" 9 anos antes!
Em 1964 "Vereda da Salvação", também de Anselmo, empata em Berlim com "Alphaville" de Godard.

Mas prêmios (assim como listas dos 10 mais) não são de forma alguma absolutos, mas são de alguma forma importantes!

É notória a falta de reconhecimento que este artísta teve em vida. É sabido de todos que na época do prêmio em Cannes Anselmo não ganhou o reconhecimento pelos cineastas brasileiros pois não fazia parte do "Cinema Novo". Mas seria uma grande estupidez se, de uma hora para a outra, por causa do prêmio em Cannes, os cineastas modernos brasileiros começassem a fazer amizade com Anselmo. Isso não faz sentido, não havia interesses ideológicos, e provavelmente de nenhuma natureza. Não houve hipocrisia.
Anselmo continuou sua carreira normalmente, porém sem sucessos representativos. Talvez o que ele buscava era mais reconhecimento por parte do público.

Nas palavras de Anselmo "O mal do Brasil é a falta de auto-estima cultural. Somos um país pessimista e não enaltecemos nossos próprios artistas. Os meninos do cinema novo diziam que prêmio não vale nada. Não vale nada para quem não ganha."


E neste domingo o programa "Conexão Roberto D'Avilla" reprisará uma entrevista com Anselmo Duarte concedida em 2000. Será às 20h na Rede Brasil.

Pra quem ainda não viu, aqui estão os links para download via torrent de "O Pagador de Promessas". Assisti recentemente e me surpreendi com o fato de o padre do filme fazer o papel de vilão intolerável e a mocinha chifrar o personagem principal com um gigolô "feio que dói".

Copie e cole estes links no seu programa p2p

Parte 1
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Parte 2
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12 de nov de 2009

Enterro de Di Cavalcanti



Dia desses, passando pela comunidade "Filme Brasileiros (Download)", me deparei com um arquivo que há muito já tinha ouvido falar, mas pensava que se tratava de um filme totalmente censurado e impossível de se conseguir.

Trata-se do curta "Ninguém Assistiu ao Formidável Enterro de sua Quimera, Somente a Ingratidão, Essa Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável." mais conhecido como "Enterro de Di Cavalcanti" ou "Di Cavalcanti Di Glauber" de Glauber Rocha.

É notório de muitos o fato de Glauber Rocha ter filmado o enterro desse que foi um dos maiores artítica da cultura brasileira, gerando polêmica na mídia e escândalo para a família do falecido. Também é notório de muitos o fato desse filme estar interditado pela justiça desde 1979 por pedido da filha adotiva de Di.

Glauber se justifica dizendo que "A morte é um tema festivo pros mexicanos, e qualquer protestante essencialista como eu não a considera tragedya... Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes.
No caso o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição. A Festa, o Quarup - a ressurreição que transcende a burocracia do cemitério. Por que enterrar as pessoas com lágrimas e flores comerciais?"


11 de nov de 2009

Porquê este machismo fetichista?



Em "O Ritual dos Sádicos/O Despertar da Besta" depois de quase 1 hora de cinema moderno em preto e branco inicia-se uma sequência alucinógena hiper colorida e beirando o surreal, onde 4 usuários habituais de drogas passam por um experimento de um médico que injeta Lsd neles. Na sala onde os personagens se encontram há a frente deles este poster:


A partir de então, começam a viajar no ácido, cada um na sua mente com suas taras e medos, e o Zé está na cabeça de todos. O que mais me chocou foi que durante toda a sequência há uma enxurrada de frases e cenas preconceituosas que diminuem a mulher perante o homem, na verdade esse fato acontece durante todo o filme, mas aqui é mais intenso, veja:

"Dos primórdios até o fim do século o homem é absoluto, é o senhor da vida, e a mulher, seu intrumento. Não há reprovação para os seus atos. É a escrava submissa perante o poderio dos homens. E assim será, através dos milênios. E assim será, até o final do tudo!"

(...)

Um personagem diz: "Ele está certo, é a força do homem e a submissão da mulher."

"É o homem que a humanidade procura, desde os primórdios. É a recompensa do sofrer, da incompreensão terrena."

Zé do Caixão diz: "A mulher é e será através da barreira do tempo, das dimensões do universo, o ser inatingível da glória repugnante, que exala da bestialidade dos homens!"

Uma personagem fala: "Ele é o príncipe das trevas!"









Mas talvez essa forma hiperbólica de pisar sobre a mulher nada mais seja do que um tapa na cara, para fazê-las acordarem e lutarem contra o sistema machista opressor e abusador tão forte nos anos 60 e até hoje.




6 de nov de 2009

Discurso de um oprimido/perseguido

postado por Wesley





"Eu não fiz nada, porra... Eu não fiz nada... Por que eu?... Porque eu sou veado? Por quê? Porque eu me visto de mulher e acredito nisso? Eu sou a fantasia barata de todos vocês... E vocês, o que é que olham com essas caras de imbecis?... Seu bando de bundas-moles... passivos. Mesmo com toda a promiscuidade, vocês nunca deixaram de ser bem comportados. Eu conheço o sonho de todos vocês, seus veados, frouxos... Suas esperanças são pobres... Miseráveis... Hipócritas... Vocês gostariam mesmo é de ser mulherzinhas e maridinhos... Se pudessem, vocês teriam um bando de filhinhos, uma fileira de adoráveis monstrinhos para reproduzir essa merda toda"

(...)





"Banheiros imundos... bancos traseiros de carros... sombras... O sexo escroto... pelo meio... O tesão sempre no lugar errado... E aí, ninguém vai reagir, não? Burros... burros passivos, escrotos... O que é que vocês fizeram com a sexualidade? que merda vocês fizeram da... Que merda..."





Texto retirado do filme "Anjos da Noite" (1987). Obra pós-moderna escrita e dirigida por Wilson Barros.

1 de out de 2009

Narrativa (da Vida/Cinema/Literatura) Contemporânea


Postado por Wesley

"O mundo está destroçado e não há como remontar seus estilhaços. Os personagens padecem de total desorientação, sendo incapazes de organizar-se a si próprios e, muito menos, ordenar o universo à sua volta. Desesperados, buscam uma verdade, sem saber se há possibilidades de encontrá-la. Ou nem mesmo a buscam, limitando-se a sofrer ou a protagonizar a desordem, a violência física e moral e a desintegração das formas de convivência social. (...) À desintegração ética corresponde a desintegração técnica, com a estrutura narrativa revelando-se desordenada, fragmentada e geralmente sem um foco narrativo, ou ponto de vista único ou claramente definitivo " (José H. Dacanal)




29 de jul de 2009

"Sem essa, Aranha"


E se não existissem regras fixas para o cinema, será que o público conseguiria absorver idéias que estivessem fora de um padrão lingüístico e narrativo estabelecido há mais de 80 anos?

Assim começa o livro “Por um cinema sem limites”:

“O Cinema – “arte das evidências enganosas” - nasceu com a criação do homem, quando este cedeu uma costela à mulher, evoluiu com o mito platônico da caverna, ao ampliar a imagem e semelhança divina na consciência ancestral que desembocou no teatro de sombras chinesas onde alcançou o seu esplendor criativo, influenciando-nos irremediavelmente. Espalhou-se da Ásia para Europa graças ao empenho de mágicos e ambulantes andarilhos percorrendo feiras, circos e quermesses. Não era ainda o cinema, com carga de mesmice e redundância mal feita hoje, mas algo mágico que prefigurava e o antecedia com maior força do que a mídia atual, sob o princípio da decomposição e composição do movimento a partir de imagens-fotograma fixos

Só foi conhecer sua forma atual, a perfuração e o formato 35 milímetros, com Emile Reynaud, o genial mágico e empresários do Teatro Robert Houdini (que passaria às mãos do não menos genial, o incomparável e soberano George Mélies). Em pleno século das luzes, a invenção, provinda da fotografia conjugada a projeção de lanternas chinesas, envolveu fotógrafos, químicos, físicos, artistas-inventores, artesões mecânicos e industriais que transformaram na máquina de produção-reprodução de imagens animadas, inicialmente através do desenho, e patenteadas graças a esperteza do feiticeiro de Menlo Park – Thomas Alva Edison – e o fundador da Kodak, Georges Eastman, criador do suporte em acetato”

O cinema já existia antes mesmo da película, diz Sganzerla, e ele tem razão, CINEMA é projeção de idéias. Acho muito triste e limitado a visão que de modo geral a população tem de cinema, Hollywood. Deve-se, por algum tempo, ignorar a existência desta fábrica de dvds e suas filiais, e ver o que se faz e o que se fez no resto do mundo. Outras formas, outras cores, outras idéias, outras pessoas, outras vidas.

No cinema de Hollywood e em suas filiais espalhadas pelo mundo seus filmes precisam fazer sentido do começo ao fim, a história está hermética e corretamente fechada para que não aja dúvidas (pensamentos) por conta dos espectadores, e os espectadores gostam disso, se sentem seguros pois não precisam pensar muito para absorver o que está passando em frente aos seus olhos.

Quando tudo o que lemos (inclua a Bíblia), ouvimos e vemos (no cinema, na TV, nas revistas, no teatro) faz sentido e possui uma lógica interna tão bem marcada e correta que permeia toda a duração isso é prova mais do que concreta de que entramos numa crise existencial irremediável, pois não existe sentido na vida, então porque haveria sentido nas expressões da vida (a arte)? Se vivemos algo sem sentido e acreditamos cegamente em algo com sentido quando absorvemos esta expressão como reflexo verdadeiro da vida, pensamos: “Por que minha vida não faz sentido se no cinema a vida faz sentido?” “O que há de errado comigo?”

Eu respondo: Não há nada de errado com você, mas com certeza há algo de errado com o que você está absorvendo.

Os filmes de criação, de invenção, modernos, contemporâneos, ou mesmo pode-se dizer marginais (marginal da ignorância e da caretice virulenta que contagia a sociedade) possuem uma visão expandida desta arte que nasceu moderna e se perdeu graças ao seu imenso potencial de geração de renda, seu Karma.

“Sem essa, Aranha” fala sobre a miséria e a decadência moral e intelectual, sobre religião, sobre vida animalesca, sobre a cultura musical do povo, sobre limitação, sobre amor, sobre Brasil, a vida (documentário) se misturando com a ficção (mise-em-scène). Não existe estrutura dramática (começo, meio, fim, uma cena dependendo da outra) as cenas existem por razão própria dentre de si, e não por causa de uma continuidade lógica e entendível. É cinema fora de padrões tradicionais, Sganzerla nega todos os padrões estabelecidos não porquê ele é um garoto mal, mas simplesmente porquê ele tem visão consciente da vida.

Cinema existe para algo maior que apenas contar uma história “legal” dentro de um mundo fechado em si que exclui automaticamente o nosso (o mundo real) e que exclui a câmera e toda a vida ao seu redor, como se não dependesse dela. Cinema é o reflexo mais próximo da nossa vida. Esse cinema de contação de história é reflexo de mentes aprisionadas em convenções de um passado distante.

Você não acredita nas mesmas coisas que as pessoas da década de 10 acreditavam, nem tem os mesmo costumes, nem se veste da mesma maneira, você não escuta as mesmas músicas nem se diverte ou se relaciona com outras pessoas da mesma forma que as pessoas da década de 10. Tudo isso evoluiu, modificou-se, e o Cinema também! Porquê então você ainda só vê filmes produzidos no mesmo formato convencionado na década de 10?

As pessoas que assistem a um filme como “Sem essa, Aranha” ou qualquer outro filme diferente do padrão tradicional, e dizem simplesmente “que o filme não tem nada a ver” são genuinamente ignorantes.


ou melhor,

Compre o dvd na 2001 Video ou na Dvd World, ele vem com 2 curtas metragens, um do Sganzerla e outro da Helena Ignez + uma entrevista de 2h30 de duração com o Sganzerla onde ele fala pá-karalho sobre cinema, arte, vida, Brasil, e coisarada, vale muito a pena comprar o dvd!


9 de mar de 2009

A CASA DE ALICE

por Wesley


“A Casa de Alice” é o tipo de filme que revela. Mostra o cotidiano na sua forma simples. A parte complexa fica com o roteiro que usa de recursos clássicos (curva dramática, clímax, ponto de vista, etc.) e acredito que não precisava disso, pois como o filme se presta a revelar e a não iludir, e como não é um filme feito com a pretensão de arrecadar centenas de milhões nas bilheterias esses parâmetros do cinema clássico se tornam desnecessários, mas não atrapalharam.

O filme revela o dia-a-dia de uma família de classe média baixa. Revela seus problemas de convivência e suas mentiras, não a grande mentira (religião, amor, existência), apenas a mentira hipócrita, aquela típica e pequena do dia-a-dia, mas que faz toda a diferença, ou pelo menos alguma diferença. Para pessoas banais, problemas banais, mentiras banais.

Por exemplo, num diálogo alguém diz: “Transei com o meu marido a noite inteira, foi ótimo!”, nós sabemos que é mentira, ficaram brigando, não se agüentam mais, nem se tocam! Mas a pessoa que está escutando acredita no que a outra diz, ou finge que acredita.
Outro exemplo de um outro personagem que diz:
“Aquela mina é muito gostosa!” também é uma mentira, este personagem é gay, está só se fazendo de macho na frente dos familiares, pois ele tem uma imagem de militar a zelar, além de ser o primogênito. E por ai vai...

Todo mundo mente ou faz algo escondido, essa é uma verdade na vida e assim também no filme, mas como toda a verdade essa também é relativa.

Os atos destes personagens nunca são julgados (ou quase nunca) pelo diretor nem pelo roteirista que, aliás, são a mesma pessoa. Não há (ou quase não há) castigo generalizado ou redenção. A única castigada é a avó, proprietária do apartamento e que sempre parece saber de tudo ou quase tudo, e por isso é mandada para o asilo.
O caçula é o único que parece não mentir nem esconder algo, ele ganha a atenção e o carinho de todos na casa, aliás, é o único. Talvez ele mereça esse carinho por não fazer nada de errado. Bem, não sabemos se ele não faz nada de errado, apenas não vemos ele fazendo! Este não é o tipo de filme de verdades absolutas, ele é relativo. Só porque não aparece na tela não significa que não aconteça.

Mas de alguma forma o filme faz sim julgamento dos atos de seus personagens, pois fazendo a inevitável comparação desse caçula com os demais membros da família ele parece ser um santo e todos os outros têm e são podres, pois estão fazendo alguma coisa errada. Mas esse é o tipo de julgamento que resta para quem está vendo o filme, não é explicito na película.

Todos os julgamentos parecem ficar a cargo do espectador, mas há um julgamento explícito no filme e quem julga é o diretor (o julgamento não acontece no roteiro, ele acontece na forma). Descrevo; na cena vemos a avó indo em direção à janela do apartamento, ela está no alto vendo tudo (visão superior), ela vê seu neto mais velho chegando de carona num Gol preto, ele recebe uma grana do dono do carro, que o agradece e pega na sua coxa, é obvio que além de gay ele também é michê. A câmera está posicionada no alto, o clássico plongée (câmera que julga e diminui o personagem em vista de outro) e não parece haver razão para esse julgamento. Aliás, esse personagem é o mais complexo do filme. Vejam todos os rótulos que foram empregados a ele: primogênito, militar, gay, michê, pavio curto e dono da razão. Nós não gostamos dele, eu pelo menos não gostei, ele não é ruim apenas tem muito a esconder e suas máscaras são muito pesadas para uma pessoa só carregar. Talvez por isso o diretor o julgue como fazendo a coisa errada sendo michê, mas ser michê não parece ser a coisa “errada” a ser julgada e/ou denunciada. Muito mais errado é ele mentir! Quando ele mente para o seu irmão caçula narrando uma forma de sedução e dizendo que já fez isso muitas vezes com mulheres, nós sabemos que isso é mentira, ou pelo menos sentimos a presença da mentira em seu discurso, neste momento a câmera está na altura do seu olhar, um close up pegando um dos lados do seu rosto, ou seja, câmera que não julga. Como se não houvesse problema em mentir.

Depois de assistir a “Os Monstros de Babaloo” a minha visão sobre famílias no cinema mudou muito. Para mim “Os Monstro...” se tornou o filme definitivo sobre família. Obra de referência.

É porque eu gosto de cinema que explora de forma visual o interior, a alma. Alegorias. E não há essa exploração visual em “A Casa de Alice”. Senti falta disso. Mas é um absurdo comparar esses filmes.

Quando comecei a assistir “A Casa..” logo pensei “putz, que mal, parece novela!”. Bem, não é!

Baixe "A Casa de Alice" clicando aqui, lembrando que este filme não tem pra comprar e nem alugar. Ou pelo menos eu não encontrei.