17 de mai de 2008

Novo filme de Meirelles tem recepção fria em Cannes

Orlando Margarido
Direto de Cannes
Fonte: terra.com.br


O 61º Festival de Cinema de Cannes começou oficialmente com a exibiçãode Ensaio sobre a Cegueira, ou Blindness, o título original do filme do brasileiro Fernando Meirelles. Mas a imprensa já assistiu a esse primeiro filme da competição para a Palma de Ouro.

A recepção fria, sem aplausos, dá uma medida talvez da complexidade da produção em dialogar com o grande público que procura uma apreensão dividida por Meirelles em seu blog. Conta ponto para esse interesse a presença de astros internacionais como Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael Garcia Bernal e Danny Glover, além da atuação da brasileira Alice Braga.

"Esse filme foi mais ou menos como andar na corda bamba", disse o cineasta de Cidade de Deus ao Terra. "É um bom projeto para quebrar a cara e mesmo agora, com o filme pronto, ainda fico esperando alguma coisa errada acontecer, estou sempre inseguro com ele", completou o diretor.

Acompanhado do elenco principal, exceto Ruffalo, e do roteirista e também ator na fita Don Mckellar, Meirelles confirmou muito do que já havia dito anteriormente. Foram dez edições até que a montagem desta adaptação do livro homônimo do português José Saramago estivesse pronta. Uma das questões mais questionadas por sessões especiais da fita foi a violência de cenas, como as de estupro e uma morte por facada.

Contribuiu muito para um ponto final, segundo o diretor, o convite do festival enviado na última hora para a fita abrir a competição da mostra francesa, numa rara situação na história de Cannes em que um filme de abertura concorre a Palma de Ouro. "De qualquer maneira, uma hora a coisa teria de acabar", disse. "Cada dia somos uma pessoa diferente, então se deixarmos podemos ficar montando por anos a fio; coloquei um pouco de racionalidade no processo e parei."

Na história de Ensaio sobre a Cegueira, co-produção entre Brasil, Canadá e Japão, uma epidemia começa a deixar cegos os habitantes de uma grande cidade - o cenário da fita inclui São Paulo com uma direção de arte impressionante - sem nenhuma explicação lógica. Aos poucos, eles são retirados da convivência social e aprisionados num hospital desativado. Entre eles, está o oftalmologista vivido por Ruffalo e sua mulher, interpretada por Julianne Moore, a única que mantém a visão, mas decidi acompanhar o marido na reclusão.

Ali, trancafiados, os cegos passam a ter uma convivência subumana. "Foi um processo muito doloroso e difícil para todos nós do elenco imaginar uma tragédia dessas, não só se tornar cego de uma hora para outra, mas ter de lutar pela sobrevivência, comida e, acho o que mais me abalou, pela dignidade", disse Julianne Moore, que está loira no filme. "Achei que a personagem tem uma espécie de missão angelical na primeira parte do filme, por isso falei da idéia de pintar o cabelo; o vermelho só iria aguçar mais a aparência de inferno do local."

Meirelles já havia contado ao Terra do que o atraiu no livro para decidir adaptá-lo. "A idéia da fragilidade de nossa civilização, que consideramos tão sólida e sofisticada; o filme nos lembra que somos animais primitivos com um leve verniz de civilidade; ao raspar-se esse verniz, o fulano mata o outro no congestionamento, invade o Iraque...". Don McKellar completou: "O filme é uma alegoria do colapso de nosso tempo".

Na saída da primeira exibição da fita, não era acerca disso os comentários preferidos dos jornalistas. Muitos falaram da bela fotografia de César Charlone, outros da boa atuação do elenco, mas levantaram a idéia de que o filme por vezes não consegue soar plausível e isso condenaria a seriedade.


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