19 de mai de 2008

Meirelles admite que 'Blindness' é sombrio demais para abrir Cannes

Blindness (Ensaio Sobre a Cegueira) levou visões apocalípticas da sociedade em colapso ao Festival de Cinema de Cannes nesta quarta-feira, e o diretor Fernando Meirelles admitiu que o cenário sombrio que ele fez da humanidade foi uma escolha estranha para abrir o glamouroso evento francês.

Foi uma inauguração séria dos 12 dias de filmes, entrevistas, iniciativas publicitárias e festas no resort da Riviera francesa, que se orgulha de promover o cinema alternativo tanto quanto de receber a realeza de Hollywood em seu tapete vermelho.

Ensaio Sobre a Cegueira é uma adaptação do romance homônimo do premiado com o Nobel José Saramago e conta a história de uma epidemia de cegueira que varre o mundo.

Julianne Moore faz a mulher de um médico que, como o público do filme, consegue enxergar a morte, a crueldade e a degradação que a cercam. Pouco a pouco, ela se conscientiza da responsabilidade que sua posição singular lhe impõe.

"Nós nos achamos tão fortes, sofisticados e sólidos", disse Meirelles a jornalistas depois da exibição do filme para a imprensa. "Mas então uma coisa dá errado e tudo desaba."

"Patinamos sobre gelo fino. Qualquer coisa pode acontecer e acontece", continuou o diretor, que ganhou fama mundial com Cidade de Deus. A estréia oficial do filme será esta noite.

Meirelles e o roteirista Don McKellar disseram que se sentiram inspirados pelo fato de o romance de Saramago aparentemente refletir os desastres naturais da vida real, as doenças e nossos temores recentes com segurança alimentar.

Fernando Meirelles disse que abrir o festival de Cannes é uma honra e também uma pressão, mas acrescentou: "Para ser franco, acho que este não é o melhor filme para abrir um festival".

Boa parte do filme é ambientada num asilo abandonado nas proximidades de uma cidade não identificada. As autoridades em pânico encerram ali a vida de pessoas atingidas pela contagiosa "doença branca" - assim chamada porque os cegos enxergam tudo branco, e não negro.

Um sistema de vida operacional, apesar da miséria humana, derrapa quando um dos detentos - o mexicano Gael Garcia Bernal - decide aplicar a lei com suas próprias mãos.

Em meio à anarquia resultante, atrocidades são cometidas e, quando os detentos se libertam, Moore descobre que o resto da cidade não está se saindo muito melhor que eles.

"Agimos como pessoas civilizadas porque temos comida, temos tudo bem estabelecido", disse Meirelles. "Basta perdermos isso para vir à tona o que realmente somos por baixo."

Quarta, 14 de maio de 2008, 13h04 (terra.com.br)

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